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Meu subsolo particular: onde carrego tudo o que não digo.

  • Foto do escritor: Rachel Sanches
    Rachel Sanches
  • 20 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Ou não costumava dizer…


Hoje acordei de madrugada, e a insônia junto com alguns pensamentos intrusivos me fizeram refletir sobre alguns aspectos da minha vida e a vida de quem me cerca em geral. Uma leitura em especial está me fazendo questionar muitas camadas da existência, muitos sentidos que damos ao que fazemos, e principalmente o modo como buscamos propósito.


"A humanidade valoriza mais a busca do que a conquista."

Li essa frase no livro "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, e desde então fico pensando na veracidade disso. A gente passa a vida correndo atrás de sucesso, dinheiro, reconhecimento, status, conforto, carros, casas e viagens. Essas são as conquistas. Mas, se é isso que queremos, por que não paramos quando finalmente conseguimos?


Será que é só ambição? Ou existe algo mais profundo como quase que um vício numa busca incessante?


Dostoiévski vai além e diz que “o homem gosta do processo, mas não gosta de alcançá-lo”. E isso me fez perceber algo: o desejo é mais forte que a satisfação. Na busca, no processo há propósito, há movimento, aquele calorzinho da expectativa. Quando alcançamos o objetivo, a excitação evapora. O que a gente conquista depois de um mês vira cotidiano, rotina. E aí? A gente cria outro objetivo. E depois outro. E assim por diante.

É como se vivêssemos num limbo. Um ciclo que nunca termina.





Pensa comigo: primeiro você sonha com um apartamento de dois quartos, perto do trabalho, que te dê o luxo de dormir uma hora a mais. Quando você consegue, fica feliz, é claro! Mas com o tempo, aquilo vira normal. Já começa a querer um carro confortável para poder viajar no Réveillon sem chegar quebrada depois de 18h dirigindo do Rio até Brasília. Você luta, trabalha, faz hora extra, economiza e enfim compra o seu tão sonhado Jeep Compass. Passado um mês… já virou rotina. E, de repente, você já está pensando em comprar uma casa na praia, aquele sonho antigo que você carrega desde criança. Um canto seu, aconchegante, para passar as férias com a família.





Percebe o padrão? Assim que se alcança um objetivo, outro nasce na mesma hora. É como se a mente não tolerasse parar.


E isso não acontece só com dinheiro ou bens. Acontece com estudos também. É ensino técnico, graduação, pós, mestrado, doutorado… e em concursos então, nem se fala: quando você acha que “chegou”, já está desejando outro cargo, um pouco melhor, um pouco mais alto, um pouco mais seguro, que pague melhor e tenha mais benefícios. É sempre “só mais um passo”. Só que esse “mais um” não tem fim.


Começo a achar que talvez a busca seja a forma que encontramos de nos sentir vivos. Talvez o processo preencha um vazio que a conquista não preenche. O processo distrai, movimenta, dá ânimo, a gente cria aquela expectativa gostosa e se imagina feliz quando enfim alcança o que quer. A conquista do objetivo, por outro lado, nos confronta com o que não muda dentro da gente, e aí a solução é criar outra busca para não encarar esse silêncio.


No fundo, talvez Dostoiévski estivesse dizendo que a inquietação humana não é defeito, é natureza. A gente não sabe existir sem desejar. E quando um desejo se realiza, a vida exige outro para continuar andando.


A pergunta é: isso nos move ou nos aprisiona?

Talvez seja um pouco dos dois.


Isso é mais sobre como eu me vejo, e como vejo poucas pessoas ao meu redor. Diz mais sobre mim do que sobre o outro. Acho que essa leitura está servindo como um exercício involuntário de autoconhecimento rs.


Não vejo muito essa busca incessante ao meu redor. Mas percebo que, no geral, as pessoas estão cada vez mais acostumadas a viver no automático, sobrevivendo no piloto-automático sem se perguntar muito sobre o que querem, por que querem ou se aquilo realmente faz sentido. Vejo muita gente seguindo um roteiro já pronto, como se a vida tivesse uma lista oficial de etapas a cumprir: nascer, crescer, estudar, arrumar um emprego que dê para levar, casar com alguém do mesmo ciclo, ter filhos, trabalhar até cansar e, no fim, simplesmente morrer. Um caminho engessado, quase como se fosse obrigatório seguir essa sequência sem pensar duas vezes.

E está tudo bem, talvez esse caminho faça sentido para elas. Mas, para mim, é impossível simplesmente aceitar esse roteiro sem questionar. Preciso entender, refletir, buscar outros significados. Porque viver no automático nunca foi uma opção que coubesse em mim.


E o mais engraçado (ou trágico?) é que começo a ver em mim algumas semelhanças com o personagem do livro… e acho isso péssimo e me dá um pouco vergonha! É quase como se eu estivesse lendo uma grande crítica de mim mesma, um espelho torto que não me poupa. Parece que o texto cutuca exatamente aquilo que eu tento ignorar. E aí vem aquela consciência incômoda, que não me dá sossego nem de madrugada rs


Em contrapartida, Dostoiévski escreveu o personagem justamente para que o leitor se sentisse desconfortável.

O “homem do subsolo” é exagerado, extremista, ácido. Mas ele é construído a partir de traços humanos reais, ampliados ao limite para nos fazer pensar.


Ninguém se identifica com ele inteiro, mas quase todo mundo reconhece pedaços dele em si: a consciência exagerada, o pensar demais, a auto crítica ferrenha, a sensação de estar “por dentro” analisando tudo, o questionamento sobre propósito, o incômodo com a própria própria contradição, o prazer no processo e o tédio após a conquista.


Talvez por isso essa leitura esteja me pegando tanto. Ela escancara uma inquietação que eu já sentia, mas não conseguia nomear. É como se Dostoiévski me desse linguagem para pensamentos que eu carregava em silêncio. E quanto mais eu leio, mais percebo que minha mente funciona nesse movimento constante: desejar, conquistar, esvaziar, desejar de novo. Não por ingratidão, mas porque é assim que sinto a vida pulsar.



A forma como nos enxergamos molda tanto a forma como percebemos os outros quanto a imagem que acreditamos que eles têm de nós.



Ao mesmo tempo, fico me perguntando se essa inquietação é um privilégio, um peso, ou as duas coisas. Porque quem não se questiona parece viver com uma leveza que eu não conheço. E quem se questiona demais… às vezes carrega o mundo dentro da cabeça. Talvez eu seja desse grupo. Talvez você também seja. Ou talvez eu só esteja atravessando uma fase em que tudo ganha profundidade demais.


Eu carrego o mundo dentro da cabeça, e tem dias em que isso pesa demais. Enquanto outros respiram leve, eu coleciono preocupações, memórias, hipóteses, medos e futuros que talvez nem existam. Minha mente não desliga. Ela repassa, revisita, reinventa, cobra, compara, exige. E às vezes eu só queria um botão de pausa, um instante de silêncio mental, um minuto em que minha cabeça não tentasse decifrar tudo ao mesmo tempo. Mas esse é o meu jeito de existir: intensa, consciente demais, sentindo tudo em profundidade. É bonito, mas também cansa. Cansa muito.


De qualquer forma, essa reflexão tem me ajudado a entender que minha busca não é por conquistas externas, mas por alguma forma de significado interno, algo que ainda não sei explicar, mas que continuo tentando alcançar. E talvez seja justamente esse movimento que me ajude a não estagnar.


E o mais curioso é que tudo isso veio só da primeira parte do livro. Ainda nem cheguei na segunda metade e já estou assim, tomada por reflexões, desconfortos e esse senso de autoanálise involuntária.

Quando eu terminar a leitura, sei que vou voltar com ainda mais questionamentos, talvez até com algumas respostas. Ou, quem sabe, mais perguntas ainda.


 
 
 

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